quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Porque sempre no diminutivo?

Você já notou que a maoria dos brasileiros sempre usam as palavras no diminutivo? Toda frase construída, tem sempre uma ou mais palavras no diminutivo. Por exemplo.: Se a pessoa vai ao mercado...Diz que vai fazer umas comprinhas...Se vai beber...Diz que vai tomar uma cervejinha...Se vai comer...Diz que vai comer uma porçãozinha ou pizzinha...Se vai ao cinema...Diz que vai assistir a um filminho...Se vai fazer cooper...Diz que vai fazer uma corridinha ou caminhadinha...Se está relachado em casa...Diz que está no sofazinho, vendo uma televisãozinha...Se está amando...Diz que vai ver a namoradinha...Se está de férias...Diz que vai fazer uma viajenzinha...Se está com enchaqueca...Diz que vai tomar um remedinho...Se cumprimenta alguem...Diz " E ae, Belezinha? E não é só por ai não, nos termos pejorativos também, como por exemplo...Maringá "Ô cidadezinha provinciana"...."Mas que prefeitinho, heim?....Aquele vereadorzinho, heim?...Você leu aquele jornalzinho, ontem?...."Ô transitinho complicado esse, heim?!?!?...Essa coligaçãozinha, não vai dar em nada....E por ai vai, em todas as situações sempre no dimutivo. É estranho esta peculiaridade do vocabulário de muitos brasileiros. Gostaria de saber de onde veio essa tendencia. Será que usar de forma correta o diminutivo e em alguns casos o aumentativo, não seria mais proveitoso??

Um comentário:

geizita disse...

Meu namorado fez essa observação para mim, sempre achei que usar o diminutivo era algo extremamente comum, mas aí eu fui pesquisar para ter uma base cientifica a respeito do assunto. Encontrei esse estudo na internet e como brasileira e mineira concordei com o que esta escrito. Espero ter respondido sua pergunta.

Os brasileiros não são concisos ao se comunicarem, não fazem, como os portugueses, o emprego cartesiano da língua, o que lhes confere a oportunidade para construir torneios lingüísticos cheios de subtendidos.
Para os brasileiros, os diminutivos constituem um símbolo da aproximação, de intimidade. Resistir quem há-de ao convite para uma “cervejinha geladinha” (diga-se que deve estar quase no ponto de congelamento) ou para um “cafezinho fresquinho” (enganosamente “fresquinho”!); servem de advertência em expressões como “toma cuidadinho”, “trate direitinho”, quando emprestamos algum objeto, cuja intenção é mostrar o nosso apego por eles e advertir que os queremos de volta.
Se o diminutivo tem como função precípua a emotividade, nos usos lingüísticos do brasileiro ele pode servir para desviar o sentido ameaçador de certas palavras. Estão sempre desarmados para uma “prosinha”, para um “papinho”, que pode ir do papo-furado ao papo-cabeça, passando por uma “fofoquinha”, para incrementar o papo ou aliviar a tensão, mas nada de chamar para uma conversa, que soa e passa e ser compreendida como uma palavra ameaçadora... A palavra “corte”, pronunciada por um cirurgião, pode evocar no brasileiro o sentimento de dor; se atenuada para “cortezinho”, “operaçãozinha”, “cirurgiazinha”, a intervenção poderá ser de alto risco, mas ele não se sentirá ameaçado pelo perigo, porque a afetividade dessa linguagem vai passar pelas brechas da lógica e funcionar como um elemento atenuador.
Ameaçadora e altamente provocativa também é a expressão “queridinho”, que ao primeiro sinal da sua utilização deixa o brasileiro na retranca, de ouvido em pé, pronto para a revanche. Chamar o maridão de “queridinho” às vezes pode levar àquela situação em que a mulher não sabe por que está apanhando, mas o marido sabe perfeitamente por que está batendo! Amantes e namorados se tratam por “benzinho”, “amorzinho”, e ninguém discute a afetividade deste tratamento, mas é certo que subjaz a intenção de evitar conflitos na identificação, não correr o risco de errar o nome do parceiro. Neste campo semântico cabe a “escapadinha”, a “rapidinha”, o “sarrinho”, áreas de conhecimento que o brasileiro se orgulha de exercitar com competência em locais conhecidos pelos catarinenses por “instantinho”.
Há também a preferência por palavras enganadoras como “boquinha”, “gracinha”, “fezinha”, “coisinha”, “trenzinho”. Fazer uma “boquinha” não significa necessariamente que o brasileiro se comporte educadamente à mesa, pois ele pode surpreender batendo um colossal “pf”, e não se deve confundir com “o boquinha”, aquele visitante indesejado que bate ponto na sua casa sempre no horário das refeições. Diz-se que o Brasil é o maior país católico do mundo, e nisso não cabe dúvida, pois o brasileiro está sempre renovando a sua “fezinha” no número do cavalo do Santo Guerreiro! Se o falante não for mineiro, ao primeiro sinal da expressão “ó coisinha”, “ó trenzinho”, qualquer brasileiro reagirá negativamente pensando tratar-se de uma “gracinha”; se for mineiro, terá a certeza de que é alguém que o saúda de forma efusiva. Agora, “fazer gracinha” está mais para a ironia do que para qualquer outra manifestação, e ironizar não é coisa de brasileiro que se preze. Ele está mesmo ligado é nas “mentirinhas” e nas “pegadinhas” de mau gosto que os políticos aprontam a cada dia. Recentemente o governo federal deu aos servidores um aumento salarial de 0,01%, ao qual a imprensa classificou de “aumento de mentirinha”, que não ajudaria nem no “pãozinho” nem no “cafezinho”! Na linguagem usual entre crianças, entretanto, a expressão “mentirinha” leva conotação afetiva. Brincar de “mentirinha” é um jogo lúdico no qual elas colocam com muita seriedade suas expectativas profissionais (médico, professor, dentista e domésticas, entre outras).
Eu propus brincarmos de comidinha (...) Eu expliquei que a gente cozinha, faz as comidas (...). Se a comidinha é de verdade, a gente precisa arroz, toicinho (...) Se é de mentira, a gente tem que fingir. (MORLEY, 1963: 174)
Como se vê, o fato de “fingir” e de encenar uma circunstância particular recorrendo ao diminutivo é um expediente cultural, um conjunto de conhecimentos sociais e comportamentais que o brasileiro acolheu e assumiu como uma tradição, normas e valores, que utiliza com habilidade para guiar suas atitudes e não se expor de forma direta. Esta atitude permite que ele defina quem é, e quem pensa que é, preservando assim a sua auto-imagem, a imagem de homem cordial.